Round 6 e suas Lições sobre Endividamento

Atualizado: 19 de abr.

Sabemos que uma vida financeira mal planejada e mal controlada geram dívidas e seus efeitos colaterais como insônia, ansiedade, irritação, palpitações, arritmias, depressão, distúrbios alimentares, brigas na família, divórcios, entre outros. E, como não bastasse essa lista de consequências prejudiciais para a saúde física e mental, existem ainda os inúmeros caminhos dolorosos e sombrios que as pessoas muitas vezes tem de passar para tentar quitar suas dívidas.


Round 6 foi o seriado mais assistido em mais de 90 países e um dos mais comentados nesse ano, e traz uma forte crítica sobre o endividamento das famílias de classe baixa e média e a desigualdade socioeconômica na Coreia do Sul.


O seriado todo é sobre um jogo, onde as pessoas convidadas a participarem tem algo em comum: estão endividadas e sem meios de saldar suas dívidas. Os desafios, que são baseados em jogos infantis sul-coreanos, são mortais, onde a penalidade de quem perde é a morte e apenas um único vencedor pode leva o prêmio de cerca de 46,5 bilhões de wons sul-coreanos. E durante os jogos os participantes são expostos a muita violência, medo, desespero, traições... As cenas são violentas, mas retratam bem a realidade desesperadora de uma nação de famílias que estão endividadas e sem perspectivas para o futuro.


O endividamento das famílias sul coreanas aumentou muito nos últimos anos, chegando a superar 100% de seu PIB. Os principais fatores para esse fenômeno são: crescente desemprego entre os jovens, aumento de preços dos imóveis, recente alta nas taxas de juros, pandemia do Covid-19 e as restrições governamentais para adquirir empréstimos. Sul coreanos na faixa dos 30 anos são os que mais devem em relação a sua renda e os que mais recorrem a empréstimos, e quando não conseguem empréstimos através de instituições legalizadas, vão atrás de outros credores não legalizados, onde a cobrança pela inadimplência também é cruel e fatal.


A série traz também a história do endividamento de uma grande montadora automobilística na Coreia do Sul que foi contada pelo personagem Seong Gi-Hun. Ele relembra que foi agredido durante uma gigantesca greve em 2009 e um dos seus colegas foi morto durante conflito com a polícia. Essa história foi real (o nome da empresa foi trocado na série), o protesto aconteceu em 2009 quando a SsangYong Motor Company entrou com pedido de falência e a fabricante precisava passar por um processo de reestruturação. A demissão de 2.600 funcionários da fábrica em Pyongtaek na Coreia do Sul, a falta de acordo entre a companhia e o sindicato, resultou em 77 dias de greve e 974 trabalhadores ocupando a fábrica, com muitos feridos e até mortes no confronto. Há mais de uma década com problemas financeiros, com dívidas que superam a 200 milhões de dólares, a montadora conhecida pela maior e mais brutal greve de funcionários na Coreia do Sul, hoje está completamente falida e contribuiu para a tragédia financeira de muitas famílias.


Mas afinal, o que é ser endividado?

O endividamento financeiro significa ter parcelas de compras a vencer, a pagar. Se você comprou algo parcelado, seja uma viagem, um carro, uma geladeira, uma TV, computador ou celular, enfim, qualquer compra parcelada, por carnê, prestações, cartão de crédito ou cheque pré-datado, você está entra nas estatísticas como endividado.

Existe também os inadimplentes, que são pessoas endividadas que não pagam suas dívidas no prazo estipulado, pagando juros por atraso e sendo incluídos nos órgãos de proteção ao crédito. Normalmente é considerado inadimplência as dívidas em atraso por mais de 90 dias.

Mas se eu sou endividado e pago no prazo, que mal há nisso? Afinal, “se a gente não parcela, não compra nada”, esse geralmente é o argumento de quem não sabe poupar para o amanhã e gasta antes de ter o dinheiro na mão. Sim, o endividamento em si não é o problema, se bem planejado e usado é útil; mas sem um planejamento antecipado e usado para quaisquer fins, pode tornar-se um pesadelo.


Quando a pessoa faz a compra parcelada, adquiri o bem e a dívida junto, normalmente a pessoa tem uma fonte de renda no momento da compra. De um modo geral, ter alguma renda é o suficiente do ponto de vista de quem vende a crédito, mas para quem compra não é o suficiente. Primeiro é preciso analisar se a compra é de fato necessária naquele momento, se é simplesmente uma compra que poder ser adiada para depois, ou se pode ser planejada melhor, economizando primeiro e juntando a grana até conseguir comprar.


Antes de assumir uma dívida, é preciso ter uma reserva de emergência, que é construída ao longo do tempo em que se vive com menos do que se ganha. Imprevistos acontecem a todos, sem exceção, e podem gerar gastos extras que a pessoa não tem de onde tirar e por isso a importância da reserva de emergência. Exemplo, pode acontecer um acidente pessoal que será necessário desembolso para remédios, pode ser que o seu pet fique doente e vai necessitar gastar com tratamento, pode ser que seu filho(a) fique doente de repente ou precise muito de algo, ou algum eletrodoméstico pode estragar na sua casa sendo necessária a reposição imediata, ou mesmo pode ser necessário algum conserto ou manutenção no carro/casa.


Normalmente as pessoas só colocam na conta os gastos rotineiros do mês a mês, porém, muitos acontecimentos inesperados acontecem. Então se a pessoa já tem o orçamento apertado, gasta tudo que ganha, e quando tem uma pequena sobra, vai lá e encaixa uma parcela de algo (dívida), que dura meses ou anos; como vai fazer quando um imprevisto acontecer? Provavelmente ela irá atrasar aquela parcela da dívida, resultando em juros e talvez em inadimplência.


Infelizmente o que acontece é que as pessoas comprometem totalmente seus salários, não poupando nada para reserva de emergência, nem para o futuro, e quando dá encaixam parcelamentos a perder de vista. A situação fica ainda pior quando a fonte de renda diminui ou acaba, aí nesse caso não sobra renda suficiente nem para pagar o básico, quanto menos para pagar o celular parcelado, a geladeira parcelada, o carro financiado...


Mas, e o endividamento das famílias aqui no Brasil, é igual ou diferente da Coreia do Sul?


Segundo a pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, sete em cada dez famílias no país dizem que chegaram ao mês de agosto/2021 com dívidas, ou seja, 71%. Outro recorde preocupante da pesquisa: 83,6% das famílias endividadas citaram que o cartão de crédito é a fonte da dívida.


Muitos até colocam toda a culpa na pandemia da Covid-19, sim, ela também tem a sua parcela de contribuição, mas se você observar o histórico de 2018 até 2021, irá notar que o percentual de famílias endividadas de 2018 chegou em 60,7%, em 2019 subiu para 64,8%, em 2020 com a pandemia foi para 68% e nesse ano está em 71%.


Ah! Vale ressaltar que a questão do endividamento afeta todas as classes sociais do nosso país. Em dezembro/2019, antes da pandemia, 66,6% das famílias endividadas tinham renda menor que 10 salários mínimos e 61,4% tinham renda superior a 10 salários mínimos. Em dezembro/2020, 67,7% das famílias endividadas tinham renda inferior a 10 salários mínimos e 60% tinham renda acima de 10 salários mínimos.


Um dos grandes perigos que nos cercam e que mais cedo ou mais tarde levam ao endividamento é o desiquilíbrio, é a cultura do “eu mereço”, “a vida é curta”. A necessidade de consumir e consumir mais coisas que não cabem no pagamento à vista, o trocar de carro com frequência, ter o último modelo de celular, de roupas, tratamentos estéticos, estar nos lugares na moda...

Temos uma farta oferta de produtos e facilidades para comprar bens e serviços que estão acima do poder de compra das pessoas, estão acima da sua renda. Então as famílias parcelam, seja no cartão de crédito, no carnê ou fazendo financiamentos.


Para quem é assalariado, os empregos não são definitivos, e para quem é empreendedor, a receita pode diminuir de uma hora para outra. Se isso acontecer, como ficarão as parcelas a pagar?


Sem reserva de emergência, e com o aumento da inflação e da taxa de juros, as famílias ficam em situação semelhante aos personagens do Round 6, sem saída e a beira do colapso. Um dos personagens, por exemplo, embora graduado e com carreira promissora, orgulho do bairro, se endividou e deu de garantia a casa e o negócio da mãe idosa, fugiu dos credores e da polícia, mas estes chegaram até a sua mãe e expuseram o crime dele e a dívida. Outro personagem perdeu o emprego, foi empreender e faliu, a esposa pediu o divórcio e levou a filha do casal, e a situação financeira dele não permitia nem mesmo presentear sua única filha; recorreu a credores não legalizados e jogos de azar, sofreu violência física, foi viver à custas do trabalho da mãe idosa, que precisava até mesmo amputar a perna por conta do diabetes, mas eles não tinham dinheiro para o tratamento.

A pergunta é: Como é possível uma família não estar endividada? Desenvolvendo a inteligência financeira! A resposta é simples, mas trata-se de uma longa jornada que não é possível transferir para outra pessoa. Cada um tem que ter e desenvolver a sua. A Educação financeira precisa urgentemente atingir a todos, pois é um processo de aprendizagem contínuo ao longo da vida. Poderia ser mais difícil, participar do Round 6 por exemplo, ou envolver-se em dívidas de modo ilegal e ter que pagar com a vida se ficar inadimplente.

Embora existam inúmeros conteúdos disponíveis, gratuitos e pagos, infelizmente, poucos realmente procuram pela educação financeira e a colocam em prática com a seriedade que deve ser levada.

Pessoas sem inteligência financeira não conseguem lidar com as finanças de maneira saudável e de maneira sustentável, são imediatistas, não conseguem planejar seus próximos 5 ou 10 anos de vida. Famílias endividadas prejudicam gerações...

Viver de acordo com a sua receita, não gastar tudo o que ganha, ter uma reserva de emergência são as lições mais básicas e necessárias. Mas infelizmente, as pesquisas continuam nos revelando que o endividamento das famílias só aumenta. E num cenário de polarização política, aumento de inflação e com possibilidade real de estagflação, o cenário fica ainda mais preocupante.

Ter uma educação financeira, desenvolver a inteligência financeira, reduz significativamente e drasticamente a tomada de decisões erradas em relação ao dinheiro, pois as decisões são tomadas com cálculos, reflexões, em conjunto com os membros da família, são decisões tomadas para um bem maior e de longo prazo, não para suprir o ego ou carência emocional, mas para gerar bem estar duradouro. E a mudança começa com você!



Sobre a autora: Sheila Czelusniak é Administradora graduada pela Universidade Positivo, com extensão em Administração Sustentável pela UNINDUS/UFPR. Consultora certificada na metodologia de Investigação Apreciativa, pela Case Western University.

É co-criadora do Empoderamento Financeiro onde ajuda as pessoas a desenvolver a Inteligência Financeira e a aprender a Investir. É co-realizadora do curso Finanças para Empreendedores onde pequenos e médios empresários aprendem a fazer a gestão financeira dos seus negócios. Na Update Consultoria, seja virtualmente ou presencialmente, ajuda empreendedores e profissionais com treinamentos, investigação apreciativa, plano de negócios, plano financeiro, planejamento estratégico e finanças pessoais. Apaixonada por questões relacionadas ao desenvolvimento humano e sustentabilidade, acredita no poder das palavras e do positivismo na transformação de pessoas e organizações.

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