Planejamento Financeiro - O Caso Flamengo

Atualizado: 13 de Jan de 2019

Sou flamenguista de coração e como parte desta enorme nação de apaixonados, cresci ouvindo, entre um título e outro, que o #Flamengo não pagava salários, que era o clube que mais tinha dívidas entre os times brasileiros, que contratava jogadores sem ter condições, que não era um clube transparente, que era um clube falido e etc.


Mas aqueles que acompanham, ao mínimo, o futebol no Brasil, sabem que o cenário atual do Clube de Regatas Flamengo é completamente diferente deste que era observado até pouco tempo atrás. E o responsável por isso tem nome: planejamento financeiro.


O futebol imita a vida, e como tal, o planejamento (principalmente o ligado às finanças) quase sempre é deixado em segundo plano. Mas quando levado a sério, o bom planejamento financeiro, que envolve saber exatamente o quanto ganhar, como gastar e quando gastar, pode revolucionar, melhorar e ou até mesmo salvar um negócio.


Hoje o Flamengo é um clube que paga rigorosamente em dia sua folha salarial, contrata jogadores de forma inteligente aproveitando oportunidades de mercado (sempre respeitando o % de gasto pela receita), investe com qualidade nas categorias de base (e lucra muito com isso), aproveita ao máximo o dinheiro que vem da televisão, gerencia de forma profissional as suas despesas, negocia com visão empresarial e faz valer os patrocínios que recebe.


Creio que o ponto da virada surgiu com o fracasso da gestão Patrícia Amorim, aliada ao alto custo da contratação de Ronaldinho Gaúcho. Como torcedor angustiado, acompanhei a crise financeira, os crescentes empréstimos, as dívidas milionárias e os processos judiciais que deterioravam as finanças do clube que pioraram ainda mais a partir desse ponto.


Eis que então, em 2013, surgiu Eduardo Bandeira de Mello, que assumiu o clube com a missão de colocar a casa em ordem e tentar tirar o clube da agonia.


Com muito poucos resultados no campo, o Flamengo passou três anos muito abaixo das expectativas devido a essa importante e necessária reformulação. Foram anos de economia, de pagamento de dívidas, de revisões contratuais, de reestruturação financeira. E isso certamente não se fez sem planilhas, sem excel, sem um planejamento prévio, sem contas e sem um competente e bom controle dos números...


Enquanto o #Flamengo era piada por suas eliminações na Libertadores ou fracassos no #Brasileirão, a diretoria trabalhava e as finanças eram prioridade. Indicadores de desempenho financeiro mostravam se as decisões estavam em linha com os objetivos financeiros do clube de curto e longo prazos (postos em um orçamento que fora escrito na pedra e que não permitia desvios). E aí, com a casa caminhando para a ordem, o investimento a longo prazo começava a ser feito.


Não houve loucura para acertar com #Guerrero, o Flamengo não gastou além do que tinha para trazer o #Diego. As categorias de base ganhavam títulos e novos jogadores de destaque voltavam a ser revelados e sondados pelos principais times da Europa. Planejamento foi a palavra de ordem! Após o primeiro mandato, Eduardo Bandeira e seus associados, haviam deixado os principais pilares encaminhados para o azul, e então o Flamengo começou a mostrar sua verdadeira e nova realidade. 


No final de 2016, os números foram extremamente positivos, muito em função do sólido e novo modelo de gestão do clube. Mesmo faturando muito, o clube manteve a estrutura de gastos bastante enxuta e dentro do planejamento, o que permitiu o clube fechar o ano com um alto superávit, aliás, o maior da história do futebol brasileiro.


O clube encerrou 2016 com receitas totais de R$ 510 milhões e lucro de R$ 153 milhões. Nos últimos três anos a soma dos lucros alcançou impressionantes R$ 348 milhões. Isso sem dúvida foi histórico para o futebol brasileiro. Nunca um clube havia lucrado tanto.


A gestão voltada para redução de custos e o bom planejamento financeiro fizeram com que o custo com futebol no Flamengo atingisse R$ 200 milhões, e isso em números de futebol representa muito pouco para um clube que fatura mais de R$ 500 milhões. Apenas como comparação, o Palmeiras encerrou 2016 com custos de futebol superiores a R$ 340 milhões. A relação custo com futebol sobre receita no flamengo havia caído de 45% em 2015 para 37% em 2016.


Sim, 2017 não foi um ano muito agradável por conta da eliminação precoce na Copa Libertadores, mas o time em campo era um time competitivo, ganhou um Campeonato Carioca, brigou até o final pelo Campeonato Brasileiro e disputou outras duas finais: a Copa do Brasil e a Copa Sul-Americana. Mas o Flamengo continuava superando suas expectativas no aspecto financeiro. Tudo continuava a melhorar nas contas do clube. E as primeiras grandes recompensas pelo trabalho nas categorias de base começavam a aparecer: R$ 198 milhões entravam limpos nos cofres rubro-negros devido às vendas de Jorge e de Vinícius Junior. O prêmio e o retorno dos investimentos!


Mas não foi só isso. Os patrocínios, os direitos de transmissão e o programa de sócios-torcedores (o Nação Rubro-Negra), geravam ainda mais receita. A receita, que era para ser de +/- R$ 430 milhões segundo o que havia sido orçado, chegou a mais de R$ 590 milhões. E quando entra mais dinheiro do que se previa, se permite gastar um pouco mais com inteligência. No decorrer da temporada passada o Flamengo finalmente fez aquilo que a torcida esperava dele, manteve

Diego no meio-campo, segurou Guerrero no ataque, contratou o goleiro Diego Alves, trouxe o meia Éverton Ribeiro, enfim, subiu os investimentos. Gastou sim um pouco mais entre salários e contratações, mas foram a níveis aceitáveis do plano de gastos em relação à receita (mais um indicator poderoso de controle financeiro). O que mostrou mais uma vez que as decisões passavam a ser feitas olhando números e não mais através de emoções.


Em 2018, no último ano de mandato de Eduardo Bandeira, o Flamengo manteve sua trajetória de austeridade, fez reforços no time seguindo a sustentabilidade financeira, mas novamente não conseguiu uma temporada vitoriosa em campo não atingindo boa parte das marcas que desejava.

O clube planejava um título grande entre os três disputados (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil ou Libertadores), ser finalista em uma competição e terminar entre os quatro do Brasileirão. Só um dos objetivos foi alcançado. Mesmo assim, no campo das finanças o time continou dando show de bola...


A redução de dívidas, a melhoria dos centros de treinamentos, os investimentos na base, o projeto do estádio próprio (para não mais ficar na dependência da má gestão do Maracanã), e a confiança do torcedor que gerou mais sócios, e o bom gerenciamento dos números continuaram.

DNA perdedor, time com mentalidade fraca, jogadores sem alma, enfim... mesmo com a falta de sucesso em campo, a gestão de Eduardo Bandeira de Mello no Flamengo foi muito elogiada e considerada um exemplo de gestão para o esporte Brasileiro, sendo avaliada como a melhor gestão financeira do Brasil. Ganhou vários prêmios de gestão e transparência, sendo destaque no jornal Americano The New York Times. E com méritos! Pois o clube reduziu a sua dívida que passava de R$ 715 milhões em 2012 para menos de R$ 400 milhões em 2018.


O Flamengo deixou de ser o clube mais quebrado do Brasil para se tornar um dos que menos tem dívida e em breve será um dos primeiros clubes do Brasil a atingir a marca de R$ 1Bi de faturamento. Foram alguns anos mostrando o quanto o planejamento financeiro e investimento são poderosos para a saúde financeira de uma empresa, de um clube.


Quando foi a última vez que você leu notícias de salários atrasados no Flamengo? Quando foi a última vez que você viu o Flamengo pedindo empréstimo gigantescos para fechar o ano no azul? Quando foi a última vez que você viu o Flamengo adiantando cotas de TV para fazer contratações desnecessárias? 


Independente do time, do tamanho da empresa e do negócio, a profissionalização, a boa gestão de custos, o planejamento financeiro, a visão de longo prazo e o pensamento empresarial voltado para as finanças é mais do que necessário, é fundamental! Ganha a empresa, ganha a sociedade, ganha o futebol, ganha o time, ganha a paixão.



Sobre o autor: Luiz Mar é Administrador graduado pela UFPR, com MBA em Direção Estratégica e Pós-Graduação em Finanças Empresarias. Criador do Empoderamento Financeiro onde ensina Inteligência Financeira e Investimentos, é profissional da área financeira e há mais de 15 anos trabalha com planejamento financeiro na Mondelez Internacional. Na Update Consultoria, onde é sócio por mais de 5 anos, ajuda empreendedores e profissionais com treinamentos, investigação apreciativa, plano de negócios, plano financeiro, estratégia e finanças pessoais.

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